Avançar para o conteúdo principal

Temos tanta coisa

Temos uma casa, por isso damos por garantido ter um teto onde ficar. Ter uma cama onde dormir. Não ter frio nem ter medo.

Temos roupa para vestir e sapatos para calçar. Temos coisas que já nem nos lembramos que temos.

Temos família e amigos, mais ou menos, muito chegados ou mais afastados. Mas sabemos que, se precisarmos, eles, em princípio, estão lá para nós. Tal como nós para eles.

Damos por garantido ter o que comer. Há qualquer coisa no frigorífico, no congelador ou na despensa. Há qualquer coisa, nunca é o que apetece, mas há. E se não houver vai-se comprar. O supermercado está caríssimo, mas ainda conseguimos comprar.

Fazendo mais ou menos contas, abastecemos o carro. Abusamos dele para ir a todo o lado porque ele está ali à nossa disposição e escusamos de ir a pé. Principalmente hoje que dizem que pode chover.

Damos por garantida a segurança, vivemos num país seguro por muito que ultimamente nos tentem vender o contrário. Não sabemos o que é não estar seguros, ter medo que nos assaltem, que nos roubem o pouco que temos connosco ou que nos matem.

Abrimos uma torneira e temos água, ligamos um interruptor e temos luz. Temos até água quente. Temos casa de banho, esgotos e quem recolha o lixo que fazemos em demasia.

Temos saúde. Uns mais, outros menos. Mas cá vamos andando.

Temos tanta coisa a que nunca damos valor. Porque está tudo à nossa disposição e não exige esforço nenhum. Porque damos tudo por garantido. E é. Até ao dia em que falte.

Temos tanta coisa.

Temos tanta coisa e achamos sempre que não temos nada.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Bagos de esperança

Tira-se o arroz do tacho e ficam meia dúzia (mais!) de bagos de arroz no fundo. Come-se o que se tem no prato - até se comeu tudo - mas ficam uns baguinhos de arroz. Vai tudo para o lixo ou pelo ralo do lava-loiça abaixo. Esses bagos de arroz, que parecem insignificances, ao fim de um tempo correspondem a um prato cheio de arroz. E não é preciso muito. Faz-se uma panela de arroz e sobra. Quem nunca? Há três opções em primeira instância: guardar deitar fora guardar para deitar fora mais tarde Guarda-se na esperança de ainda o comer; deita-se fora porque se sabe que já não se vai comer; ou guarda-se na esperança de ainda o comer (para descansar a consciêcia), mas sabendo que é certo que vai parar ao lixo dentro de dias. Esses restos de arroz não comido falecem num Tupperware no frigorífico (para quem ainda os usa), outros falecerão numa caixa plástica do chinês e outros numa de vidro. Só muda o caixão, o morto é morto em qualquer um. Em criança diziam muitas vezes (a mim e aos outros): ...

O dia em que o Parlamento foi ao VAR

Um indivíduo, deputado daquele partido cujo nome não pronuncio mas que em inglês tinha logo outro sainete - Enough Party -, lembrou-se de fazer como as crianças na escola e mandar beijinhos a uma miúda. Estava tudo bem não fosse não ser nenhuma criança (pelo menos fisicamente) e não estar na escola. É que nem sequer foi no recreio, embora muitas vezes pareça. E nem mesmo foi a uma miuda da sua liga, muito menos da sua laia.   O indivíduo estava mesmo no Parlamento Português. E nem sequer foram beijinhos sentidos, o que tornou a coisa ainda pior. Foram beijinhos sarcásticos, em jeito de "cala essa boca". Um gesto infantil, episódio repetido na novela deste partido; deve ser requisito mínimo para entrar. O Sr. Presidente da Assembleia que, para leigos, é uma espécie de árbitro da Casa da Democracia, não tendo uma visão clara do acontecimento - dado que o indivíduo estava à sua esquerda na Mesa da Presidência -, recorreu ao VAR e, no dia seguinte, deu a reprimenda à criança; ess...