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A última feira das botas da feira

Há quem tenha os sapatos dos casamentos. Há até quem ainda tenha os do domingo. Eu tenho os da feira. Na feira tudo está sujo, imundo mesmo, e não vale a pena estragar as botas boas andando por aí no meio da bosta, da lama e da bosta feita em lama... Por isso, as botas que deixam de estar boas para o dia-a-dia passam a ser para a feira. Dessas já não há pena em estragar. Estas botas têm uns 20 anos e foram as botas da feira seguramente nos últimos 10. Mas até as botas da feira têm um fim. Quando já se desfazem por dentro, quando têm as solas partidas sem possibilidade de arranjo decente  e, com jeitinho, quando já metem água... Está na hora da despedida. Este ano foi o último. Foi a última feira das botas da feira. Outras virão em substituição. Velhas, fora de moda, gastas, já meio amarrotadas, feias. Não importa, não vou para nenhuma passagem de modelos. Vou pisar porcaria e para pisar porcaria não é preciso usar Louboutin (e tenho uma sapateira cheia deles, claro). Para que cons...
Mensagens recentes

Autárquicas e outras eleições que tais

Um voto é uma grande responsabilidade. Tanto um voto feito quanto um que ficou por fazer. Talvez seja este último a maior responsabilidade de todas: deixar os outros decidirem a vossa vida porque "não vale a pena ir votar". Vale sempre a pena. Votem, ainda vão a tempo. Se os outros não têm nada a ver com a vossa vida - como tantas vezes dizem -, não os deixem escolher o rumo dela por vocês.

Às vezes, organizo-me tanto que me desorganizo toda

É  preciso ir às compras? Faço uma lista. Mas são compras para alguma ocasião especial, um jantar, uma festa? Faço primeiro a lista dos convidados, de quantas gramas de carne comem e quantas minis bebem. Só depois sai a lista final das compras. No sábado vou a Lisboa, mas primeiro passo em Santarém. Crio eventos no calendário. O evento  da ida para Santarem, o evento da estadia em Santarém, o evento da ida de Santarém para Lisboa, o evento de regresso à Capital do Cavalo. Tudo tendo em conta o tempo de viagem e os minutos que se demora a sair ou a voltar ao carro. Mais os descontos. É doentio. Eu sei. Um dia disse a uma pessoa que quando demoramos muito tempo com o método, algo não está bem. Mas o método - as listas, os eventos no calendário - são a rede que me permite saltar sem medo. Sem rede, o mais certo é esgatanhar-me para me agarrar a algo seguro ou então ir bater com os cornos no chão. Pelo menos é o que temo, por isso é que previno. Preciso saber que demoro 5min a che...

O dia em que o Parlamento foi ao VAR

Um indivíduo, deputado daquele partido cujo nome não pronuncio mas que em inglês tinha logo outro sainete - Enough Party -, lembrou-se de fazer como as crianças na escola e mandar beijinhos a uma miúda. Estava tudo bem não fosse não ser nenhuma criança (pelo menos fisicamente) e não estar na escola. É que nem sequer foi no recreio, embora muitas vezes pareça. E nem mesmo foi a uma miuda da sua liga, muito menos da sua laia.   O indivíduo estava mesmo no Parlamento Português. E nem sequer foram beijinhos sentidos, o que tornou a coisa ainda pior. Foram beijinhos sarcásticos, em jeito de "cala essa boca". Um gesto infantil, episódio repetido na novela deste partido; deve ser requisito mínimo para entrar. O Sr. Presidente da Assembleia que, para leigos, é uma espécie de árbitro da Casa da Democracia, não tendo uma visão clara do acontecimento - dado que o indivíduo estava à sua esquerda na Mesa da Presidência -, recorreu ao VAR e, no dia seguinte, deu a reprimenda à criança; ess...

Bagos de esperança

Tira-se o arroz do tacho e ficam meia dúzia (mais!) de bagos de arroz no fundo. Come-se o que se tem no prato - até se comeu tudo - mas ficam uns baguinhos de arroz. Vai tudo para o lixo ou pelo ralo do lava-loiça abaixo. Esses bagos de arroz, que parecem insignificances, ao fim de um tempo correspondem a um prato cheio de arroz. E não é preciso muito. Faz-se uma panela de arroz e sobra. Quem nunca? Há três opções em primeira instância: guardar deitar fora guardar para deitar fora mais tarde Guarda-se na esperança de ainda o comer; deita-se fora porque se sabe que já não se vai comer; ou guarda-se na esperança de ainda o comer (para descansar a consciêcia), mas sabendo que é certo que vai parar ao lixo dentro de dias. Esses restos de arroz não comido falecem num Tupperware no frigorífico (para quem ainda os usa), outros falecerão numa caixa plástica do chinês e outros numa de vidro. Só muda o caixão, o morto é morto em qualquer um. Em criança diziam muitas vezes (a mim e aos outros): ...